A escuridão de um quarto adormecido perde-se por momentos num rasgo luminoso que anuncia o início de mais um temporal. Por entre as frechas de um estor que há anos que teima em não fechar bem, vejo a chuva que cai, descompassada e agressivamente, procurando o embate barulhento na calçada.
Mais um relâmpago...olho para o lado e vislumbro-te por instantes. Sorrio e acendo um cigarro, trazendo ao quarto a luz incandescente e frágil que irradia, alaranjada, a cada bafo.
"Porquê eu?" perguntaste-me tu, há seis anos, no início de uma complicada relação que lentamente ganhou rumo e se tornou no que somos agora...
Não o disse na altura, mas a resposta seria "Porquê eu...não tu. Tu és um livro a ser escrito que eu todos os dias quero ler, eu sou...um conjunto de revistas que contam estórias com finais infelizes e parágrafos em aberto de decisões que não quis tomar."
"Foi isso que te fez o que hoje és." dirias tu, sorrindo, deixando-me já aí adivinhar esse teu "lado solar". Essa feição que hoje conheço tão bem, de corrigir o que está mal com duas ou três palavras.
Mas não.
Fiquei-me por um "Porque não?"
E como o mais ínfimo bater de asas de uma borboleta altera o rumo de uma vida alheia, não mudaria uma vírgula ao que disse. Pois embora não contendo a entoação romântica da resposta que penso, enquanto olho para ti, a meu lado, deitada, dormindo, iluminada por uma frágil luz incandescente de um cigarro, agora quase extinto, transpareceu o espírito despreocupado e carismático de um gajo que te adora, mas não o mostrou. Convidando-te, assim, subtilmente, a uma busca ainda hoje incessante de respostas como a que escrevo agora, que trazem um sorriso sincero ao teu rosto; expressão que, só por si, ilumina mais que qualquer relâmpago numa noite de temporal.

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