"'Cause I am...
A choir of fury in your head,
A choir of fury in your bed,
I'm the ghost in the back of your head."
Acendes mais um cigarro, sentada no terraço do prédio onde sempre morámos, e olhas para as nuvens que escondem a lua.
A minha voz ecoa na tua cabeça, o tom calmo e pachorrento como sempre o foi. Como quem tem todo o tempo do mundo.
"Não tinhas que ter ido. Eu só me queria despedir. Não pensei que percebesses"
"Quando se trata de ti...perco um bocado o meu norte. Sou teimosa e precisava de saber." respondes.
Enquanto a luz abafada ilumina de leve os prédios adormecidos, pensas naquela noite em que o teu mundo parou.
No terceiro Martini, ouvias uma música que não conhecias mas que a tua amiga gritava ao teu ouvido que "vais adorar!", encontraste os meus olhos por um segundo. Só um segundo. Eu de camisa vermelha, a procurar uma cara familiar no meio de um labirinto de fumo e corpos embriagados e tu, de camisa descaída sobre o ombro e t-shirt branca, fixada nos meus olhos, sem saber porquê.
Encontrámo-nos nesse instante e um momento tornou-se uma pequena eternidade. A música continuava a tocar, a tua amiga continuava a falar mas, naquele instante, éramos só nós. Sorri para ti e tu sorriste de volta. Era tudo o que eu queria. Só mais um sorriso teu.
"Sofia?! Sofia!!!" o abanão da sua amiga puxou-te de volta para a discoteca. Olhaste para ela, ainda atordoada com o subdito regressar à realidade.
"Parece que viste um fantasma..." afirmou, olhando para onde tu olhavas, sem ver ninguém. Já lá não estava. Desapareci tal como o momento, afogado pela realidade.
"Não....não, não...espera..." deslocaste-te pela multidão para o sítio onde me tinhas visto mas não me encontraste. Procuraste, em vão, o homem de camisa vermelha que conhecias tão bem, mas ninguém assim vestido se destacou num mar de silhuetas coloridas. "Estavas aqui...." murmuraste para ti mesma...e tinha estado.
"Tenho que ir!" gritaste ao ouvido da tua amiga. E desapareceste, saindo da discoteca a correr e entrando no primeiro táxi que parou ao esticares o braço.
"Para o Hospital Militar, por favor."
Às quatro da manhã, o trânsito não dificultou a viagem. As faixas desimpedidas estenderam-se em frente do Mercedes Amarelo com um senhor de meia idade ao volante que gostava de acelerar sempre que podia. Mesmo assim a viagem demorou. Na tua cabeça, horas passaram naquele banco de trás, por entre lágrimas de incredulidade e a esperança de estares errada. O táxi parecia mover-se a passo de caracol, em câmara lenta. Uma viagem de 20 minutos pareceu-te, naquela noite, um voo intercontinental.
"Chegámos." disse, finalmente, a voz rouca do taxista interrompendo a tua divagação. Reencontras-te no táxi, de dinheiro já na mão, respondendo "Guarde o troco" a um homem incrédulo pela gorjeta muito maior que o preço da viagem, motivada pela pressa de não perderes nem mais um minuto. "Mas...Obrigado menina!!!" gritou, sentindo necessidade de que ouvisses a sua apreciação.
Subiste a escada a correr e dirigiste-te à recepção. Limpaste as lágrimas dos olhos e sorriste quando não viste movimento a mais no hospital. Talvez tenha tudo sido uma estúpida alucinação ou bebida a mais.
"Muito boa noite, eu sei que é tarde mas eu preciso de ver um paciente dos Cuidados Intensivos."
"Não pode ser menina" responde prontamente a recepcionista, "impossível a estas horas.". Num rasgo de compaixão, incentivado pela ansiedade agravante da tua expressão e os teus olhos húmidos acrescentou, "Se a deixar mais calma, eu posso tentar saber como está o paciente em questão. Como é que se chama?"
"Pedro Astor." respondeste, prontamente.
A funcionária pegou no telefone e a sua calma irritou-te. Tudo parece desacelerar quando estamos com pressa. O telefone demora minutos a chegar ao seu ouvido, a chamada nunca mais é atendida. A conversa, imperceptível por entre murmúrios, faz-te esvair em incertezas. O relógio pára e engoles em seco. Fechas os olhos e suspiras.
"Como se chama a menina?"
"Sofia Astor. É o meu pai." respondeste, de olhos fechados, rezando a um Deus em que nunca acreditaste.
"Sofia....eu...lamento informá-la mas....o seu pai faleceu há vinte e oito minutos atrás..."
"Muito boa noite, eu sei que é tarde mas eu preciso de ver um paciente dos Cuidados Intensivos."
"Não pode ser menina" responde prontamente a recepcionista, "impossível a estas horas.". Num rasgo de compaixão, incentivado pela ansiedade agravante da tua expressão e os teus olhos húmidos acrescentou, "Se a deixar mais calma, eu posso tentar saber como está o paciente em questão. Como é que se chama?"
"Pedro Astor." respondeste, prontamente.
A funcionária pegou no telefone e a sua calma irritou-te. Tudo parece desacelerar quando estamos com pressa. O telefone demora minutos a chegar ao seu ouvido, a chamada nunca mais é atendida. A conversa, imperceptível por entre murmúrios, faz-te esvair em incertezas. O relógio pára e engoles em seco. Fechas os olhos e suspiras.
"Como se chama a menina?"
"Sofia Astor. É o meu pai." respondeste, de olhos fechados, rezando a um Deus em que nunca acreditaste.
"Sofia....eu...lamento informá-la mas....o seu pai faleceu há vinte e oito minutos atrás..."
Tudo o resto são flashes da tua memória enevoada. Lembras-te de caíres de joelhos no chão e gritares. De te levarem até uma cama, onde dormiste, semi-anestesiada, e de a tua amiga te ir buscar e pôr em casa, onde te fechaste uma semana de luto, chorando por um desfecho que sabias ser inevitável mas esperavas que não te confrontasse tão cedo.
(...)
Voltas a ti e continuas a fumar...eu estou ao teu lado, de camisa vermelha, a olhar para ti em silêncio.
"Sempre odiei essa tua camisa." afirmas, por entre lágrimas.
"Eu sei...eu só a vestia para te irritar. Também nunca gostei muito dela..." e rimo-nos os dois.
"E agora?" perguntas-me, limpando os olhos, olhando para mim com o teu ar de criança perdida que sabias que me desarmava.
"Agora..." suspiro enquanto olho para as nuvens que escondem a lua "parece que vai chover. Eu vou-me embora e tu vais continuar a ser a míuda mais forte que eu alguma vez conheci."
"E se eu não quiser continuar?"
"Queres. És minha filha. Eu conheço-te. Nunca te consegui fazer desistir de nada, mesmo que quisesse." Sorrio e olho mais uma vez para ti. Com os teus vinte e sete anos, eras a mulher mais bonita que alguma vez conheci. Tinhas os olhos esverdeados e o cabelo preto como a tua mãe. E uma força no olhar que faria um Deus duvidar de si, se o fitasses.
"Vai para dentro...que te molhas" digo eu. E a noite chora, enchendo de lágrimas a cidade. O teu cigarro apaga-se e eu desapareço no meio do aguaceiro quente, enquanto te vejo sorrir por entre o choro.
