"Tocas-me no rosto enquanto o ar não sai
Inspiro sem medo do acto que vem"As horas vão passando, a cidade adormece, devagar, numa pachorrenta tarde de domingo. As luzes lá fora acendem-se, os carros vão deixando de passar e as vozes nítidas de conversas soltas que ecoam até à minha janela já não me visitam. O véu negro cai sobre a agitação de uma tarde primaveril, perfurado apenas pela luz das estrelas que teimam em brilhar por entre nuvens passageiras.
O filme acaba e nós não nos apercebemos, perdidos em histórias de infância, sonhos e aspirações pessoais, deixamo-nos levar pelo prazer de conversar. Trocam-se risos, segredos e olhares não tão inocentes, que me levam a uma pergunta para a qual já sei a resposta: queres vir fumar um cigarro ao terraço?
Abro a porta e deixo-te passar, olhando de relance para o teu corpo, elegante. Move-se numa ligeireza sensual enquanto o teu perfume se arrasta, um pouco atrás, intenso e cativante.
Subimos e deixas escapar um ar surpreso ao veres a vista sobre a cidade, comentando na sorte que tenho em poder aqui vir todos os dias. Na verdade, podíamos ter fumado em casa, mas conheço o efeito inebriante que uma vista como esta pode ter.
Uma brisa mais fresca sopra na altura certa. Já de cigarro aceso, puxas contra ti o casaco bege de malha que tens vestido, abraçando-te com força numa expressão friorenta. Aproximo-te por trás, encostando o meu peito às tuas costas e cubro os teus braços com os meus.
Perdemo-nos por minutos, a contar janelas e a identificar edifícios icónicos da cidade, iluminados pelas luzes citadinas que tremeluzem à distância. A noite consegue dar um ar misterioso e sedutor ao mais banal dos edifícios. A pintura grená, suja de um paralelipípedo gigante e inestético ganha nuances alaranjadas e vermelhas que se pintam com o reflexo de uma luz.
Passam-se mais uns minutos, acende-se mais um cigarro e fala-se dos sítios que nos marcaram na cidade: onde brincávamos em pequenos, onde adormeci, bêbado, na estação de comboio, onde roubaste uma vez uma laranja, no mercado junto às docas. Viro-te para mim, desembaraço o teu cabelo louro, solto, para trás da orelha e digo em tom sussurrado "...e neste terraço, foi onde te beijei pela primeira vez..." puxando-te para mim, sorris e beijamo-nos.
Afastas-te, sorriso nos lábios, olhas para o céu e de volta para mim, mordes o lábio inferior e sussurras "é isto a que tu chamas ver um filmezinho em tua casa?".
Puxo-te para mim e perdemo-nos um no outro no terraço. Enquanto a cidade adormece, os carros deixam de passar e as pessoas já não falam, o silêncio ensurdecedor da noite é superado pela música de mais um beijo, um gemido, um suspiro...seguido da melodia muda de uma noite bem passada.

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